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Querido diário virtual

Querido diário, posso eu reclamar de todo tempo perdido em que encontro-me deitada, sentada, brincando com o ócio, olhando para o nada, olhando para dentro e etc, chamo isso então de procrastinar sem culpa. “Faz quarenta dias que estou no meu barco a velas” como diria o Vanguart, diferentemente desse, sem o álcool e a boemia, é inevitável sentir-se sozinho.
É inevitável culpar o destino e o que se acredita quando a sua vida ativa muda repentinamente para o nada. O tempo parou no momento em que eu caí. Eu poderia dizer que estava com raiva por
quebrar o que não poderia ser quebrado no momento, um mero osso e vários paradoxos que eu enxergava por estar cega, para então, passar dias pensando que o ser apodreceria com o tempo. Mas a contínua verdade de que nada somos diante de situações bobas, é gritante demais É fato que qualquer alma grita quando não se tem o poder,
o poder de escolher o que quer, o que deseja, de ir e vir, o que é, em sua concepção, deveras necessário para sentir-se b…

Notória lembrança

Em concepção errônea, navego em rios onde acompanhava-me o olhar que tremia até o último fio de meus ossos e instigava-me até a única dúvida.

Meu corpo ardia no quadragésimo dia de viagem e por entre as gotas de suor, a alma gritava: onde está a sensação de saber a que lugar eu pertenço?

Desceu pelo rio? Da terra pro mar?

O corpo tremia pensando nos seus olhos cinzentos sorridentes de prazer que até um dia antes de eu morrer, chamava-se cura. Você era a perdição de elos de sorte e ansiedade. Era a sensação perdida de prata em sonho. Você era a vergonha distante em entrelinhas. Você apresentava-me a dormência e a satisfação mergulhada em ego.

Mas em concepção errônea escrita na parede daquela tarde chuvosa em fevereiro, a face de Deus era jovial. Ele continha cabelos brancos bagunçados presos por um laço preto de plástico brilhante.

Pulso

Está só?
Esconda-te embaixo das saias
Embaraçadas de olhos nus
Sinta-te abaixo de pedras e lamentos
Tu não és invensível
Senta-te em canhões
E deixa
E para
Somente para o que te rodeia
Para qualquer coisa
Respira
Deixa pulsar
Deixa
Não seja o que te machuca
Seja clichê
Seja o que quiser
Respire-se
Respira
Olha-me
Suspira
Permita-se
Permita
O universo responde a cada ato teu
E tu não
merece menos
do que
toda a
gentileza
que
oferecer
pro
mundo.

Querido diário virtual

Conhecer alguém não significa que o amor que a gente mais conhece baterá nas rédeas do teu coração e gritará.
O que digo é que pode te dar um novo sorrir, além de novas melodias, novas músicas ou te trazer paz de volta nas músicas que tu deixaste para trás.
Ah, te dá novos pensares. Novas idéias, até mesmo novas teorias. Te dá a chance, momentânea ou não, de ver o mundo com os olhos dele, basta permitir-se enxergar. Sabe, ás vezes também te dá a oportunidade de entender mais o conceito de força de vontade e admiração. É como se você tivesse um livro de bolso que em certos momentos tu abre de bom grado, ele te surpreende e te faz querer ser melhor em vários aspectos em ti, mesmo ele não querendo ser esse tipo de livro.
Por fim, conhecer alguém não significa que obrigatoriamente o amor que a gente mais conhece baterá nas rédeas do teu coração e gritará, claro que pode acontecer, mas, talvez, de certo modo e por sorte te dê espectativas de um novo lar para crer, uma luz …

Querido diário virtual

Esse é um relato de referências.
Para o último mês do ano, dezembro fora lindo. Fez-me lembrar de tentar mais uma vez. Quis soltar o grito de Clarice Lispector, o grito de amadurecimento, o grito puro, sem pedir esmola. Conheci os olhos de Capitu, os olhos mais lindos que já vi, eram esquisitos como ela mesma dizia, castanhos esverdeados, um sedutor (s)em excesso. Olhos de Capitu, oblíqua e dissimulada, mas na história que conto, ela traiu Bentinho e fora embora. Meu coração queimou devagar. Mas em um dado momento de excessos desnecessários, Meryl Streep citou a querida Princesa Leia: “pegue o seu coração partido e transforme-o em arte”.
Eu sou grata.
Aprendi que amigos bêbados servem de apoio e a menina do cabelo colorido me doou um tapa “ Encontra alguém que te transborde”. Então eu me apreendi, me reaprendi e me reconheci de novo. Afoguei-me no cobertor e deixei os olhos de Capitu no “sorriso ao sono” de Phill Veras e cá estou tentando usar-me como cura.
E o meu peito mais abert…

Carta jogada ao vento

Final de 1900- vagão-13

Vejo-o dormir tão destemido, meu caro Frederico. Tão leve e apaixonado. Conhecestes o amor ao vento, conhecestes a alegria do teatro movimentando-se por entre o vago espaço-tempo de nosso mundo.

Viajamos por tanto tempo e fostes o primeiro a aceitar-nos como companheiros. Eu e os pobres jovens delirantes, somos irresponsáveis apaixonados por expressionismo exorbitante. Somos irrepreensíveis. Donos de nossos próprios personagens da vida. Preciso dizer-lhe que tudo se movimenta rápido demais, assim como o companheirismo que criamos. Veja bem, meu jovem Frederico, estamos unidos* por estarmos perdidos.

Digo-lhe agora com o peito desnorteado de tão apertado que amo-o. Amo-o como quando tomei os primeiros goles de absinto e olhei-me no espelho logo em seguida e a tinta escorria de estrondosas cores, amo-o como o primeiro trago de ópio. Amo-o como quando, naquela noite se…

Fragmentos de carta (II)

1900

Sem paradeiro, estou indescritivelmente feliz. A felicidade é um sonho como dizem os poetas. De onde estive, dos meus sonhos embaçados cheguei à Paris de navio* não sei de onde, quando, mas encontrei-me lá cantando alto e de bom grado em outro vagão sujo com um grupo teatral de jovens bêbados sonhadores.

Ah, Maryanne, novamente perco-me em teus olhos dizendo-me sinuosamente para seguir todos os meus surreais sonhos. Fecho os meus olhos e me perco em nossa infância. Em pensamentos momentâneos, assombro-me com cataventos enormes, mais ainda com o mais lindo e gigantesco elefante luxuoso em um jardim.
Era como se eu estivesse em transe, em um sonho e ao acordar encontrei-me em um mundo revolucionário. Um mundo boêmio onde podíamos expressar o que nos enchia de amor, música alta feroz*, escritores cheios de gratidão, pães suculentos*, absinto e músicos para com trilhas sonoras em sanfonas perdidas. Eu estava apaixonado! Era o meu lugar e estava repleto* de cada pedaço de minha alm…