Carta jogada ao vento

Final de 1900- vagão-13

Vejo-o dormir tão destemido, meu caro Frederico. Tão leve e apaixonado. Conhecestes o amor ao vento, conhecestes a alegria do teatro movimentando-se por entre o vago espaço-tempo de nosso mundo.

Viajamos por tanto tempo e fostes o primeiro a aceitar-nos como companheiros. Eu e os pobres jovens delirantes, somos irresponsáveis apaixonados por expressionismo exorbitante. Somos irrepreensíveis. Donos de nossos próprios personagens da vida. Preciso dizer-lhe que tudo se movimenta rápido demais, assim como o companheirismo que criamos. Veja bem, meu jovem Frederico, estamos unidos* por estarmos perdidos.

Digo-lhe agora com o peito desnorteado de tão apertado que amo-o. Amo-o como quando tomei os primeiros goles de absinto e olhei-me no espelho logo em seguida e a tinta escorria de estrondosas cores, amo-o como o primeiro trago de ópio. Amo-o como quando, naquela noite sentíamos o devaneio de tristeza inventada e interpretada ao som da melodia de violas e violinos, no ambiente sujo que era no nosso vagão, devo dizer-lhe que cada um estava com suas vestimentas de palhaços cinzentos em palha após um espetáculo bem-sucedido. Dançávamos tão livres quanto você agora, neste sono tão bonito. Nós rodopiávamos rápido demais, perdidos, PERDIDOS! Perdidos ao som de todo amor que lá havia.

Eu e os garotos delirantes morremos naquela noite fria de 1831.Infelizmente, os trilhos, meu amigo, os trilhos estavam soltos causando um terrível e irreversível acidente, nenhum de nós sobreviveu. Entristece-me que os trilhos estavam soltos, Frederico, soltos na vastidão de alegria que sentíamos. Hoje então, devo dizer que estamos em um mundo paralelo onde só nós bastamos para a existência perdida que temos. Frederico, você já se perguntou por que não conhece mais alguém além dos nossos amigos e sua dama?

Creio que o encontramos* neste mundo formidável para lhe mostrar a vida antes da verdade. Frederico, vá atrás dela. Não sabemos como ou quando isto acabará, mas digo-lhe com um aperto propício em meu peito que devemos deixar-te conhecer a própria dor. Algo nos puxa para o nosso ponto de partida, para Baltmore, pouco antes de nos encontrarmos. Sinto muito por você ter que acordar sozinho quando o sol nascer, mas digo-lhe com toda a sinceridade que algum dia neste mar de infinito, você também saberá para onde voltar.

Passe bem, meu caro amigo.

P.s: você sabe onde nos encontrar.

Ass: Madaleine Britza (the forgotten circus)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Querido diário virtual

Ora floresce

Notória lembrança