Querido diário virtual
Acho que amei por um dia, uma semana talvez. Se foi um sonho, não me recordo. Não sei dizer. Mas era segunda, o dia em que as almas voltam a rondar o cotidiano de repetições. Trabalho e trabalho, estuda e estuda, é o dia que eu mais odeio.
Lembro que o dia começou com cheiro de girassóis e Carl Sagan, estava sol, meu peito gritava ansiedade, eu não prestava atenção em nada, era tudo muito urgente. As mensagens, os sentimentos, as palavras, eu queria vê-la.
Lembro que cheguei em casa com o coração palpitando saudade, tentei descansar e meus olhos pesaram, não fazia sentido a chave que queria virar. Sai correndo sentindo o vento o caminho todo. Elayne Baeta disse que sempre quis ser como o vento, pois o vento é completamente livre, e eu ali me senti, pela primeira vez, como ela. Eu sentia a minha liberdade, a liberdade de sentir e ser. É cômico sentir isso depois de tantos anos presa em algumas amarras.
Lembro que quando a vi de cabelo preso e vestido preto o meu coração se estrepou e eu o senti cair. Não compreendi, não perguntei, não quis saber, mas ali estava ela, num café qualquer, numa praça qualquer, num parque qualquer. Tocava Marina Sena, Gal Costa, Marisa Monte, até Corpo e Canção de Letícia Fialho nos meus ouvidos. Eu sabia que estava acontecendo alguma coisa, só não sabia o que.
No meio daquela praça tudo ficou meio turvo, quente, confortável, calmo, parecia amor, era amor, era fácil imaginar o futuro, a construção, o lar, a varanda, a biblioteca, ela, será? Era isso mesmo? Sei que quase desfaleci em vários momentos, mesmo vendo ela gritar que queria "casar" e eu implorando paciência.
E vendo aqueles olhos que pareciam estar brilhando tanto quanto os meus... Quero dizer...
Quero dizer que senti o tempo parar.
Parar no tempo...
Parar no tempo com as pessoas que a gente gosta é melhor do que qualquer coisa no mundo.
Quando fui embora, tudo o que eu sentia ainda era o vento. Sentia a liberdade e com um sorriso nos lábios eu me via transbordar no meio da estrada.
Eu amei por um dia ou uma semana, não sei dizer. Talvez tenha sido um sonho mesmo. Foi engraçado, porque eu sentia muitas outras coisas com aqueles olhos, era agridoce.
Tudo era agridoce.
Talvez eu tenha acordado. E o que eu escutava depois disso tudo era Marisa dizendo que tudo é efêmero, que nada permanece, tudo se transforma, mas nessa segunda e nessa semana, eu pensei em passar pela vida com ela pelo tempo que durasse.
Que bom que tive a oportunidade de colidir com um mundo tão diferente do meu.
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