domingo, 19 de novembro de 2017

Carta jogada ao vento

Final de 1900- vagão-13

Vejo-o dormir tão destemido, meu caro Frederico. Tão leve e apaixonado. Conhecestes o amor ao vento, conhecestes a alegria do teatro movimentando-se por entre o vago espaço-tempo de nosso mundo.

Viajamos por tanto tempo e fostes o primeiro a aceitar-nos como companheiros. Eu e os pobres jovens delirantes, somos irresponsáveis apaixonados por expressionismo exorbitante. Somos irrepreensíveis. Donos de nossos próprios personagens da vida. Preciso dizer-lhe que tudo se movimenta rápido demais, assim como o companheirismo que criamos. Veja bem, meu jovem Frederico, estamos unidos* por estarmos perdidos.

Digo-lhe agora com o peito desnorteado de tão apertado que amo-o. Amo-o como quando tomei os primeiros goles de absinto e olhei-me no espelho logo em seguida e a tinta escorria de estrondosas cores, amo-o como o primeiro trago de ópio. Amo-o como quando, naquela noite sentíamos o devaneio de tristeza inventada e interpretada ao som da melodia de violas e violinos, no ambiente sujo que era no nosso vagão, devo dizer-lhe que cada um estava com suas vestimentas de palhaços cinzentos em palha após um espetáculo bem-sucedido. Dançávamos tão livres quanto você agora, neste sono tão bonito. Nós rodopiávamos rápido demais, perdidos, PERDIDOS! Perdidos ao som de todo amor que lá havia.

Eu e os garotos delirantes morremos naquela noite fria de 1831.Infelizmente, os trilhos, meu amigo, os trilhos estavam soltos causando um terrível e irreversível acidente, nenhum de nós sobreviveu. Entristece-me que os trilhos estavam soltos, Frederico, soltos na vastidão de alegria que sentíamos. Hoje então, devo dizer que estamos em um mundo paralelo onde só nós bastamos para a existência perdida que temos. Frederico, você já se perguntou por que não conhece mais alguém além dos nossos amigos e sua dama?

Creio que o encontramos* neste mundo formidável para lhe mostrar a vida antes da verdade. Frederico, vá atrás dela. Não sabemos como ou quando isto acabará, mas digo-lhe com um aperto propício em meu peito que devemos deixar-te conhecer a própria dor. Algo nos puxa para o nosso ponto de partida, para Baltmore, pouco antes de nos encontrarmos. Sinto muito por você ter que acordar sozinho quando o sol nascer, mas digo-lhe com toda a sinceridade que algum dia neste mar de infinito, você também saberá para onde voltar.

Passe bem, meu caro amigo.

P.s: você sabe onde nos encontrar.

Ass: Madaleine Britza (the forgotten circus)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Fragmentos de carta (II)

1900

Sem paradeiro, estou indescritivelmente feliz. A felicidade é um sonho como dizem os poetas. De onde estive, dos meus sonhos embaçados cheguei à Paris de navio* não sei de onde, quando, mas encontrei-me lá cantando alto e de bom grado em outro vagão sujo com um grupo teatral de jovens bêbados sonhadores.

Ah, Maryanne, novamente perco-me em teus olhos dizendo-me sinuosamente para seguir todos os meus surreais sonhos. Fecho os meus olhos e me perco em nossa infância. Em pensamentos momentâneos, assombro-me com cataventos enormes, mais ainda com o mais lindo e gigantesco elefante luxuoso em um jardim.
Era como se eu estivesse em transe, em um sonho e ao acordar encontrei-me em um mundo revolucionário. Um mundo boêmio onde podíamos expressar o que nos enchia de amor, música alta feroz*, escritores cheios de gratidão, pães suculentos*, absinto e músicos para com trilhas sonoras em sanfonas perdidas. Eu estava apaixonado! Era o meu lugar e estava repleto* de cada pedaço de minha alma e você soube disso o tempo todo.

Alojei-me em um quarto abandonado onde escrevo-te agora. Não conheci ninguém mais além dos amigos teatrais.
E no mais profundo* e ardente sonho, permito-me andar pelas trilhas* de um mundo livre, brusco e inconsequente. Surreal. Pergunto-me como posso não compartilhar da minha história, grande amiga? Aonde estás? Diga-me que está bem! Venha e salve-me um pouco de mim. Maryanne, por que mesmo estando em um mundo liberto ainda assim és tão inevitável para mim?

Fragmentos de carta (I)

1899

Sinto- me péssimo por só agora lhe escrever.
Eu fugi do escombros e deixei-os para trás. Deparei-me com um novo lar. Estou a andar pelos trens e permito-me conhecer pessoas de diferentes tipos e etnias.

Às minhas primeiras viagens, deixo claro que fora todas um infortúnio sem dó. Melhorou então com a entrada de uma grande mulher. Misteriosa*, gorda* e cega*. Era uma contadora de histórias, aparentava ter no mínimo 50 anos de grandes historias. Enquanto contava suas aventuras paradoxas, lembrei-me mais uma vez do teu rosto. Rosto teu, sereno e ansioso como quando encorajava-me a contar minhas desventuras pelas pequenas trincheiras de nossa cidade, eram tremendas besteiras de um jovem louco, devo dizer e teus olhos acompanhavam meus gestos de forma graciosa*. Ao lembrar-me disso, sorri destemido.

Contou ela, sentada em um mar de palha fofa que Deus nos testa para que possamos evoluir cada vez mais. O deus que acreditávamos olhando as nuvens* quando pequenos, lembra-te? Quanto mais queremos, mais demoramos a alcançar, disse ela. Deixou-me um tanto furioso*. Devo privar-me de querer-te tanto por perto, Maryanne? Devo dizer-te que não quis pensar muito nisso para não discutir mais sobre o assunto, além do mais, eu estava sujo* e aquela noite estava quente.

Sim, eu ainda estou sujo. Sujo de um cinza que não atrevo-me dizer que é cor. É poeira, terra, tão sujo quanto vários amigos que estão sempre indo e vindo destes vagões.

Hoje aos 17 estou conhecendo o mundo e estar bêbado de absinto (uma bebida mágica, onde nos faz ver uma fada verde. Disseram-me que devemos fazer-lhe pedidos.) está no auge do senhor tempo.

Ah, Maryanne, sinto tanta a tua falta. Sinto tanto em dizer-lhe que estou conhecendo o mundo aos 17 anos e não sei nem onde estás. Sinto uma insensatez mórbida por delirar de um sonho que muito falávamos aos 15.

Voltarei a escrever em breve.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Em tempos de recuperação, cobrir um significado esquecido é ranger* os dentes, é apertar o peito, é escalar* em direção ao infinito, mover escolhas, é gritar forte diante de sua própria máscara*.

If you come with me
You'll float too.

sábado, 4 de novembro de 2017

Querido diário virtual

Na maioria das vezes sou acostumada a voltar para casa com fones de ouvido não prestando muita atenção no que a vida tem a me oferecer naquele momento. Nada importa. Só a minha volta para casa, mas...

"Ela estava suja
Olhos fundos cor de mel
Roupas da cor do Brasil assombrado
Embriagava-se sozinha de sorrisos de ponta a ponta da orelha

Cantava-lhes carimbó
Tateando-os com clamor
Estava feliz
Tropeçando na ponta dos pés como a cena lhe obrigava

É a pequena parte da arte,
É a bravura sem violência
É a doce voz em silêncio
A doce sintonia que nos tocava o peito

De Cecília Meireles do século passado
à Dona Onete no meio do pitiú
Ela cantava!
De alguma forma era amor.

AMOR!
Sendo exposto em carne viva
Diante da gente
Estampado nela e na vontade de estar ali

AMOR!
Segurando um minúsculo chapéu palha
Esperando a boa vontade
De quem nem escuta
Nos mais assombrosos cantos da Cidade Velha
A doce mulher.


sábado, 28 de outubro de 2017

Outras terras: saudade

Saudade é alguém que chega e não sabe se fica
Saudade,às vezes, tem nome próprio
As vezes é o tempo.
Saudade é alguém que chega antes da hora

Saudade, as vezes, é vida
Às vezes se resume em sete dias.
Saudade fica
Saudade é meio colorida.

Saudade é esperar chegar do trabalho pensando que só restam mais dois dias.

Saudade tem nome de melhor amiga
Dor minha que é inefável, mas não atiça
Dor que pretende ir, mas sempre fica.

Romantizo a saudade em versos
Para que não sobre lágrimas para lhe partir
Para espalhar o peito em pedaços
Para dividi-la em raízes entre tu e mim.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Muda-se o caminho
Mudam-se o agir e o sentir
Mudam-se a idade e o instinto
Muda-se a cor do céu

Que da memória
Levem as lembranças
Muda-se a liberdade
Muda-se o mundo

Que do meu espanto
Acompanhem as folhas brancas
Muda-se o infinito
Mudam eu e você

Muda-se o ideal
Muda-se… mudam-se
Mudastes, mudou-me

Os versos são verdadeiros
O tempo em muita "das" vezes,
Também.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Querido diário virtual


Já faz algum tempo, eu sei. Eu não morri, mas cheguei à beira disso. Posso lhe contar um segredo? Minha mente foi a loucura.

Veja bem, o clichê é que ninguém disse que seria fácil. Nunca disseram-me que uma mente rápida* demais traria uma tempestade de perguntas sobre mim mesma. Fácil era pensar em se embebedar estando mal. Tudo era dividido* em sorte e azar o tempo todo. Era um jogo, um jogo entre tentar manter-me sã ou jogar fora todo o processo percorrido.

O veneno* é quando se tem certeza que quer melhorar e a sua mente grita: “ não, você ainda não pode melhorar.” E você revida querendo mais do que a vida pode oferecer. Você sufoca debaixo da mente encharcada de querer e não poder.
ANSIEDADE. PULSA. GRITA.
O tempo passa e é percebendo que nesse momento é só você.
É você que tem que dar o passo de mãos dadas com a mente. Ou luta com espadas* e galhos ou você não sai da lama.
Ei diário, é torto* aqui dentro. Você se tornou uma marionete do seu próprio interior quando mais se teve medo. Eu sei, é complexo. A vida te mostra que ou você estanca ou passa por isso para saber que ainda está vivo. TOC TOC, você está vivo, cara.

O caminho de volta é gigantesco*, sabe? Eu ainda estou no meio porque não sou perfeita e ainda faço besteira demais, a pergunta aparece: “ quer correr* ou ir no ritmo que o seu corpo pode acompanhar?”

Os ritmos de ação e reação te quebram* em todos os pedaços de matéria imperfeita. Eu aprendi que a paz é equilíbrio. Quando alcança você prefere andar. Consertar. Esperar. Lutar.

A minha história não faz sentido como nos velhos tempos. como eu e você juntos. Mas eis que aqui estou lhe contando como há meses não faço, que temos o poder de escolher melhorar.

Eu volto se você voltar.
A vista daí é sua.
E na sua opinião, eu voltei?

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Natal atrasado : Querido diário virtual



Talvez eu nunca tenha sido tão formal quanto agora. Talvez nem tão séria.
Ela não sabe, mas estou escutando a canção que ela me mostrou. Talvez ela não saiba, mas eu nunca encontrei uma felicidade real assim antes. Eis que tudo tem sua primeira vez.

Talvez seja pouco tempo, talvez seja apenas ela sabendo entrar na minha alma como ninguém jamais entrou. Ela entrou pela porta não sendo outra pessoa, não sendo somente palavras, não sendo meros gestos para que eu me apaixone. Ela é ela e é espontânea e talvez isso seja o que mais me atrai a ela inteira.

(Olá, boa tarde.) Talvez eu tenha me apaixonado no primeiro dia, mas não poderia lhe dizer, era rápido demais. Rápido era dizer que eu estava me apaixonando todos os dias. Ah, era.
Mas me diz, qual o problema do rápido demais se é verdade e real? Qual o problema se eu sou louca e ela meu freio? Que problemas virão se eu for a flor e ela o beija flor? Hoje não importa quantos problemas hajam, ela continua ela, e é só ela.

Sabe, é tão simples como ela veio pro meu olhar e ficou. É até engraçado, porque talvez ela seja a melhor e a mais linda poesia que meu coração está lendo. Talvez ela seja a diferença que eu nunca reparei em alguém. Talvez ela seja a diferença toda que meu corpo sente e passa mal.

Querido diário, seja lá que amor repentino seja esse, que ela saiba que aqui dentro ela se tornou vida. Ela é a flor. Ela é o sorriso de alguém que estava perdido. Ela é luz.
Ela precisa saber que para onde eu for a partir de agora, sempre terá uma parte dela em mim.
Ela é tão linda. Rabugenta também.

De hoje eu tiro a mais pura sensação da última mensagem no mensseger que mandei a ela no primeiro dia que nos falamos:

Eu vou pra onde você me levar.


Feliz natal.